A Peste Suína Africana (PSA) é a doença mais devastadora que pode atingir uma exploração de suínos. Uma única entrada do vírus numa pocilga pode matar 100% dos animais em poucos dias. Não existe vacina, não existe tratamento e uma vez instalada, a única resposta é o abate de todos os animais da exploração. Para muitos criadores moçambicanos, um surto de PSA significa perder meses ou anos de investimento numa única semana.
A boa notícia é que a Peste Suína Africana pode ser prevenida. Com medidas de biossegurança correctas, vigilância activa e conhecimento dos sinais de alerta, qualquer criador de suínos pode reduzir drasticamente o risco de entrada da doença na sua exploração.
Neste guia completo sobre a Peste Suína Africana, vai aprender: o que é o vírus e como funciona, como se transmite, quais os sintomas específicos, como proteger a sua criação com biossegurança, o que fazer se suspeitar de um caso e qual o impacto económico desta doença em Moçambique.
Peste Suína Africana: o que é e por que é tão perigosa
A Peste Suína Africana (PSA) é uma doença viral hemorrágica altamente contagiosa causada pelo vírus ASFV. Não tem vacina comercial disponível e não existe tratamento eficaz. É endémica em Moçambique e em toda a África Subsariana desde os anos 1920, mantendo-se em ciclos silváticos envolvendo javalis e carraças Ornithodoros.
Para quem pretende iniciar ou investir na criação de suínos em Moçambique, conhecer os riscos da Peste Suína Africana e adoptar medidas de biossegurança desde o início são passos fundamentais para proteger os animais e o capital investido.
A prevenção, a higiene das instalações e o acompanhamento veterinário ajudam a reduzir o risco de surtos e a garantir maior sustentabilidade e rentabilidade da exploração. Consulte o nosso guia prático de criação de suínos em Moçambique e descubra como preparar a sua produção para crescer com mais segurança.
Por que a PSA é a doença mais temida pelos criadores de suínos
Mortalidade de quase 100%: na forma aguda, praticamente todos os animais infestados morrem em 1 a 7 dias. Não há recuperação espontânea
Sem vacina nem tratamento: não existe vacina comercial aprovada nem tratamento eficaz contra o vírus ASFV em Moçambique
Resistência ambiental extraordinária: o vírus sobrevive semanas no solo, meses em carne processada e anos em carne congelada. A contaminação cruzada é muito fácil
A PSA é perigosa para os humanos?
Não. A Peste Suína Africana não é uma zoonose: não infecta humanos. As pessoas podem manusear animais infectados e consumir carne sem risco de infecção. No entanto, as pessoas podem ser vectores mecânicos do vírus: calçado, roupa e equipamentos contaminados podem transportar o vírus entre explorações.
Como se transmite a Peste Suína Africana
Via 1: Contacto directo com animais infectados
O vírus está presente em todos os fluidos corporais de animais infectados. Um suíno saudável que entre em contacto com um animal infectado infesta-se com elevada probabilidade. Nunca introduza animais novos sem quarentena prévia de 3 a 4 semanas em instalações separadas.
Via 2: Carraças Ornithodoros (vector biológico)
Em Moçambique, as carraças do género Ornithodoros são o vector biológico natural do vírus ASFV. Vivem no solo das pocilgas e podem manter o vírus vivo no seu organismo durante anos, transmitindo-o a cada repasto de sangue. Piso de cimento liso sem fendas é a medida mais eficaz.
Via 3: Alimentação com resíduos alimentares contaminados
Alimentar suínos com resíduos de cozinha que contenham carne de porco é uma das vias mais frequentes em Moçambique. O vírus sobrevive meses em carnes processadas. Se for necessário usar resíduos, cozinhe a pelo menos 70°C por 30 minutos antes de oferecer aos animais.
Via 4: Pessoas, veículos e equipamentos
Pessoas que visitam explorações infectadas podem transportar o vírus mecanicamente no calçado e roupas. Veículos de transporte de animais são especialmente perigosos: um caminhão que transportou suínos infectados pode contaminar outra exploração semanas depois.
Via 5: Suídeos selvagens
Os javalis-africanos e outros suínos selvagens podem actuar como reservatórios naturais do vírus da Peste Suína Africana (PSA), geralmente sem desenvolver os sinais graves observados nos porcos domésticos. Estes animais podem contribuir para a manutenção do vírus na natureza, representando um risco para as explorações suinícolas quando existem condições que favorecem a transmissão.
Em Moçambique, os criadores com explorações próximas de florestas, matas ou zonas frequentadas por suínos selvagens devem reforçar as medidas de biossegurança.
É importante impedir o contacto directo entre animais domésticos e selvagens, manter os porcos em recintos seguros, controlar a entrada de pessoas e equipamentos e comunicar imediatamente qualquer mortalidade anormal aos serviços veterinários. A prevenção é essencial para proteger os animais e evitar prejuízos económicos.
Sintomas da Peste Suína Africana: como reconhecer rapidamente
Reconhecer os sintomas da Peste Suína Africana precocemente é fundamental para limitar a dispersão. A PSA tem quatro formas clínicas. Em Moçambique, a forma aguda é a mais frequente.
Forma hiperaguda: morte súbita
Animais morrem em 1 a 3 dias sem sintomas anteriores observáveis. O criador encontra animais mortos sem aviso prévio. Comum com estirpes altamente virulentas.
Forma aguda: os sintomas mais frequentes
Febre alta: 41 a 42°C (temperatura normal: 38,5 a 39,5°C);
Perda de apetite e prostração: animais param de comer, ficam imóveis;
Dificuldade respiratória: respiração rápida, tosse;
Hemorragias na pele: manchas vermelhas a roxo-azuladas nas orelhas, focinho, ventre e extremidades;
Diarreia e vómito: frequentemente com sangue;
Abortos: em fêmeas gestantes, muito frequentes;
Taxa de mortalidade: superior a 90% entre o 7º e 10º dia após sintomas.
Forma subaguda e crónica
Menor mortalidade (30 a 70%) mas mais difícil de diagnosticar. Sinais: febre irregular, perda de peso, pneumonia, artrite e abortos recorrentes. Pode circular silenciosamente durante semanas.
🚨 ALERTA IMEDIATO: Se observar 2 ou mais suínos com febre alta + hemorragias na pele + morte rápida, contacte IMEDIATAMENTE o serviço veterinário do distrito. Não espere.
Diagnóstico da Peste Suína Africana
O diagnóstico definitivo da Peste Suína Africana (PSA) exige confirmação laboratorial, pois os sinais clínicos podem ser confundidos com os de outras doenças dos suínos. Em Moçambique, a suspeita deve ser comunicada imediatamente aos serviços veterinários oficiais, que orientam a recolha e o envio de amostras para o laboratório de referência.
Segundo a Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH), o PCR é um dos métodos de diagnóstico mais sensíveis e permite detectar o material genético do vírus. As amostras podem incluir sangue recolhido com EDTA e tecidos, como baço e linfonodos, obtidos por pessoal habilitado.
O prazo de 24 a 48 horas pode ser possível em determinadas condições, mas depende do transporte, da capacidade laboratorial e do processamento. Não transporte nem abra carcaças suspeitas sem orientação veterinária, para evitar a propagação da doença.
Prevenção da PSA: o programa de biossegurança

Como a peste suína africana (PSA) não dispõe de tratamento eficaz nem de uma vacina amplamente eficaz para proteger os suínos, a prevenção através de medidas de biossegurança é fundamental para reduzir o risco de contágio e evitar perdas económicas.
A FAO publicou, em 2023, directrizes específicas para a prevenção, detecção e controlo da doença em contextos com recursos limitados, incluindo realidades semelhantes às de muitos pequenos produtores em Moçambique.
Medida 1: Controlo de entradas na exploração
Pessoas: pedilúvio com desinfectante na entrada. Visitantes trocam roupa e calçado. Registo de todas as visitas.
Veículos: desinfecção antes e depois de cada utilização. Nunca permitir entrada de caminhões de transporte de animais directamente nas instalações.
Animais novos: quarentena obrigatória de 3 a 4 semanas em instalações completamente separadas. Monitorizar temperatura diária durante a quarentena.
Medida 2: Eliminação de resíduos alimentares
Nunca alimente os suínos com lavagem de restaurante ou resíduos que possam conter carne de porco sem tratamento térmico prévio a 70°C por 30 minutos.
Medida 3: Controlo de carraças
Piso de cimento liso, aplicação de acaricidas a cada 3 a 6 meses, vazio sanitário de pelo menos 6 semanas entre lotes com lavagem e desinfecção completa.
Medida 4: Prevenção do contacto com suídeos selvagens
Vedações físicas que impeçam o contacto entre suínos domésticos e javalis em explorações próximas de áreas florestais.
Medida 5: Monitorização diária
Temperatura corporal em animais suspeitos, apetite, comportamento e fezes. Registe todas as mortalidades.
✅ Temperatura normal do porco: 38,5 a 39,5°C. Acima de 41°C com prostração justifica investigação imediata. Invista num termómetro veterinário (200 a 500 MT).
O que fazer se suspeitar de PSA na sua criação
Passo 1: Isolamento imediato
Isole imediatamente os animais suspeitos dos saudáveis, impedindo qualquer contacto directo ou indirecto.
Passo 2: Notificação obrigatória
A PSA é de notificação obrigatória em Moçambique. Contacte imediatamente a DPAEA ou o serviço veterinário do distrito. Não venda, não transfira, não abate nem descarte carcaças sem autorização.
Passo 3: Suspensão de movimentos
Suspenda todos os movimentos de animais para dentro e fora da exploração até diagnóstico confirmado ou descartado.
Abate sanitário e indemnização
Em caso de confirmação, o protocolo inclui o abate sanitário de todos os suínos da exploração infectada. Existe sistema de indemnização parcial gerido pelo Ministério da Agricultura.
Impacto económico da PSA em Moçambique
Segundo a FAO, a peste suína africana (PSA) provoca prejuízos económicos significativos em África, afectando a produção, o comércio e o rendimento dos criadores. Em Moçambique, onde muitos produtores dependem da suinicultura para gerar rendimento familiar, um surto pode comprometer o investimento realizado na compra dos animais, na alimentação e nos cuidados veterinários.
Por exemplo: um criador com 50 porcos avaliados em 300 MT cada poderá perder 15.000 MT em animais se ocorrer um surto com mortalidade total. A este montante podem somar-se despesas de desinfecção, estimadas hipoteticamente entre 5.000 e 15.000 MT, além da perda de receitas durante os 3 a 6 meses ou mais necessários para retomar a produção.
Estes valores são ilustrativos e não incluem todos os custos indirectos, que variam conforme a exploração e as medidas sanitárias exigidas.
Nas explorações com 200 a 500 suínos, o impacto financeiro pode atingir centenas de milhares de meticais, dependendo do valor dos animais, da mortalidade e dos custos de recuperação.
Para reduzir estes riscos, é essencial reforçar a biossegurança, limitar a entrada de pessoas e animais estranhos, higienizar instalações e equipamentos e evitar a utilização de restos alimentares de risco.
Perante suspeitas de PSA, o criador deve contactar imediatamente os serviços veterinários locais, pois a prevenção e a detecção precoce são fundamentais para proteger o efectivo e a sustentabilidade da suinicultura.
Perguntas frequentes sobre a Peste Suína Africana
A Peste Suína Africana tem cura?
Não. Não existe tratamento nem cura. A única resposta eficaz é o abate sanitário de todos os animais infectados e em contacto, seguido de desinfecção rigorosa e vazio sanitário.
Quanto tempo o vírus da PSA sobrevive no ambiente?
O vírus ASFV sobrevive semanas no solo a temperatura ambiente, meses em fezes secas e carnes salgadas, e anos em carne congelada e no interior de carraças Ornithodoros.
Posso comer carne de porco de uma zona com PSA?
Sim, a carne é segura para consumo humano. O vírus ASFV não infecta humanos. O cozimento normal inactiva o vírus. No entanto, carne de explorações em quarentena não pode ser comercializada.
Como descontaminar após um surto de PSA?
Remoção e incineração de animais mortos e materiais contaminados, lavagem em alta pressão com detergente, aplicação de desinfectante aprovado (hipoclorito 0,8% ou formaldeído 2%) e vazio sanitário de pelo menos 6 meses antes de reintroduzir animais.
Quais as vacinas disponíveis para a PSA?
Em 2026, não existe vacina comercialmente disponível. Vacinas experimentais estão em desenvolvimento avançado. A EFSA prevê que as primeiras vacinas comerciais possam estar disponíveis para alguns mercados a partir de 2027 a 2030.
Conclusão: prevenir é a única estratégia contra a PSA
A Peste Suína Africana é uma ameaça real e permanente. Não tem vacina, não tem tratamento e mata quase 100% dos animais. Mas pode ser prevenida com biossegurança consistente, vigilância activa e conhecimento dos sinais de alerta.
Invista no pedilúvio, na quarentena dos animais novos, na eliminação dos resíduos alimentares e na monitorização diária. Estas medidas de baixo custo são a diferença entre uma exploração protegida e uma exploração devastada. Para uma visão completa da gestão financeira da criação de suínos como agronegócio, consulte o nosso guia sobre gestão empresarial no agronegócio.
Já teve experiência com a PSA ou tem dúvidas sobre biossegurança na sua exploração? Partilhe nos comentários.


